História do Egbé Ifá & Orisha Agbonniregun Aworeni - AXÉ CASA GRANDE

    



  O Axé Casa Grande, fundado em 1998, é uma das denominações mais difundidas das religiões afro-brasileiras. Seu nome remete às antigas Casas Grandes das fazendas coloniais, símbolo dos tempos do tráfico de africanos escravizados para o Brasil. A palavra “Casa Grande” evoca a chegada desses povos, vindos principalmente da Nigéria, Togo e Benin, que trouxeram consigo tradições, saberes e espiritualidade, forjando a diversidade cultural que caracteriza o Brasil.

Assim como outras religiões de matriz africana — Candomblé, Umbanda, Xangô, Xambá, Batuque — o Axé Casa Grande se distingue como uma casa iniciática de transe e possessão, onde as iniciações são longas e realizadas com grande discrição respeitando os fundamentos da nação jeje. Apenas poucos recebem os graus mais elevados, pois a casa preserva fundamentos tradicionais.

A discrição no transe, comportamento e por se aproximar às práticas em território africano é uma marca registrada, levando muitos a considerarem o Axé Casa Grande uma verdadeira “sociedade de cultura africana secreta”. Nos recintos mais sagrados, espalhados em torno da roça de voduns e orixás, apenas os iniciados mais graduados podem adentrar, reforçando o caráter reservado e respeitoso as tradições.

Organização e Estrutura

No Axé Casa Grande, cerca de 90% dos participantes são mulheres, o que fortalece a ideia de um possível matriarcado no futuro. Essa predominância feminina reflete a força e a centralidade das mulheres dentro da tradição, enquanto os homens desempenham funções específicas como Ogãns e Ojés, responsáveis por atividades rituais e organizacionais. Importante destacar os filhos que recebem esses postos como sacerdotes, iniciam sua própria jornada sacerdotal, sendo preparados para assumir responsabilidades maiores dentro da casa.


Todos os integrantes do Axé Casa Grande são formados para dar continuidade ao legado espiritual do sacerdote fundador, em um território consagrado ao patrono Vodun Sogbò. Assim, mesmo aqueles que alcançam os graus mais elevados permanecem integrados à grande egbé (família espiritual), assumindo também a missão de preparar seus neófitos — os filhos iniciados — e transmitir os fundamentos que sustentam a tradição.


Essa estrutura reforça o caráter de grande família iniciática, onde cada membro, independentemente de seu grau, contribui para preservar e perpetuar os valores, rituais e ensinamentos que fazem do Axé Casa Grande uma referência na manutenção das tradições afro-brasileiras.

 

Fundação e Trajetória

O Axé Casa Grande foi fundado em Cabo Frio, Rio de Janeiro, com a missão espiritual de difundir a cultura africana no Brasil. Seu fundador, o sacerdote Babá Ifábulujè Aworeni Odusolá — nome de batismo Luiz Roberto Drumond Tinoco — possui fundamentos iniciáticos na nação Jeje-Nagô Vodun, além de vivências nos cultos de Ifá, Egungun e Umbanda.

Sua trajetória espiritual começou cedo: em 11 de agosto de 1982, sendo iniciado no culto de Vodun por determinação de seu Vodun Sogbò. Em 1998, aos 20 anos, iniciou seu processo sacerdotal nos fundos do sítio de sua tia Terezinha de Jesus, em Rio das Ostras/RJ. Pouco depois, migrou para a Estrada Velha do Palmital, onde fundou a Tenda Espírita Pai Justino das Almas.

Por respeito às tradições, não realizava determinados cultos direcionados aos voduns em um ambiente que não era de sua propriedade. Assim, em 2 de novembro de 2004, adquiriu as terras que se tornaram a sede definitiva do Axé Casa Grande, localizada na Rua Axé Casa Grande, nº 04, Centro Hípico, Cabo Frio/RJ, com entrada também pela Rua da Macumba, nº 02.

Estrutura Física

O espaço ocupa aproximadamente 6.000 m², contendo muitos Àtinsás (arvores sagradas), contendo em separados barracões para o culto de Vodun, Egungun, Ifá e Umbanda, transformando-se em um centro policultural de matriz africana. Ali se desenvolvem cultos em um ambiente que preserva tradições e oferece aos integrantes momentos únicos de conexão com a espiritualidade ancestral.

Singularidades e Cultura

O Axé Casa Grande é único em suas práticas, destacando-se pelo culto a Egungun e a Ifá, além de incorporar tradições da nação Jeje-Nagô. O modelo de culto reflete diretamente as experiências espirituais vividas por seu fundador ligadas a sua família de Ifá com tradições trazidas de Ilè Ifé, Africa.

No barracão, além dos rituais, é comum a realização de manifestações da cultura popular brasileira, como sambas de caboclo e correntes de pretos-velhos, reforçando o diálogo entre espiritualidade e cultura.

Importância Cultural

Mais do que um espaço religioso, o Axé Casa Grande representa um ponto de resistência cultural e inter-religiosa, preservando saberes ancestrais e fortalecendo a diversidade do patrimônio cultural brasileiro. É um lugar onde tradição e espiritualidade se encontram, contribuindo para a manutenção da memória africana no Brasil e para a evolução espiritual de seus integrantes.

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